"Cada dia eu percebo mais que não tenho casa. Que não quero casa. Que não consigo caber dentro de uma casa.
Percebi que eu sempre quis, ou que não me era uma escolha, correr de tudo o que me prometia felicidade. Como se não fosse feita para mim. Como se não coubesse dentro de mim.
De certo o medo, a condição oposta, o fato de ter sofrido dez mil anos em tão pouco tempo tenha sido os motivos principais de minha intolerância à felicidade.
A verdade é que eu sempre fui a menina da janela. Que dormia de luz acesa, que ignorava a lua e procurava estrelas, que olhava para baixo imaginando um sonho de queda que viria a me perseguir por todos os anos.
Não sou mais do que ontem. Ao contrário: cada vez me sinto mais reservada, mais detalhista, mais intolerante e parecida com meu pai. É a cadeia irreversível de sofrimentos hereditários que pagamos por contas de outras vidas.
Olho as janelas, são pequenas. Não gosto mais das cores na parede. Tenho em meus braços os sonhos guardados (à espera). Toda a ilusão e promessa que qualquer lugar que seja longe o suficiente, seja também o meu porto de paz."